Review: Pusha T – Daytona

Crítica de Leonel Jacques ao projeto Daytona, do rapper Pusha T.

Disclamer: Esse artigo é completamente opinativo e produzido pelo autor, e não expressa de nenhuma maneira a opinião geral da editoria da revista Over.

 

Nota do álbum: 8,5/10

 

Yo, Leonel Jacques aqui. “DAYTONA” é o novo projeto do clássico e lírico Pusha T, filiado à G.O.O.D. Music, com produção e divulgação inteiramente por Kanye West. Aliás, Ye também comprou os direitos de imagem da capa, no mínimo controversa: a pia do banheiro da Whitney Houston no momento da overdose, repleto de caixas de drogas e bagunçadíssimo, editada com manchas laterais em cores rosadas como um papel recém retirado de uma parede depois de tempos colado.

 

 

Capa muito forte, do álbum Daytona | Foto: reprodução.

 

O conteúdo da imagem é forte, e a escolha da foto foi julgada como de muito mau-gosto pela própria família da cantora, que faleceu em fevereiro de 2012. Apesar da polêmica, é plausível dizer que a capa atingiu seus objetivos artísticos, se tornou instantaneamente um clássico e serviu bem ao conceito do Pusha, renomado por rimar sobre sua vida de vendedor de drogas no passado.

 

Sonoramente, o trampo é incrível. A grande dúvida é o que eu destaco primeiro: a produção impecável, crua, agressiva e minimalista do Kanye ou o trabalho lírico intenso, afiado, aliado de cadências extremamente criativas e passagens por assuntos delicados e desafiadores que são relevantes para a cultura do Hip-hop e afro-americana em geral, conduzidos pelo Pusha T. Esse álbum é puro game, do início ao fim, cativante e cada vez mais viciante na medida em que cada música começa, e a curta duração do projeto (21 minutos, 7 faixas) me fez dar replay pelo menos outras 4 vezes de primeira, em busca de diminuir minha cara de tacho e conseguir analisar friamente cada um dos versos das músicas.

 

E puta que me pariu, é pura poesia. O King Push não perdeu o jogo de caneta e não caiu em musicalidades e ideias ultrapassadas, elevando o som dele no cenário atual com ajuda do visionário Kanye West.

 

Ainda quando o projeto parece ter estagnado e apresentar pouca vivacidade, como em “Hard Piano”, com um colab deveras ... do Rick Ross, os jogos de palavras e referências do Pusha T compensam pelo instrumental, que poderia ter valorizado mais o belo sample de soul do refrão, por exemplo. O cara faz TODAS as linhas contarem, dispondo de um storytelling que faz o ouvinte sentir a história que ele conta.

 

A tracklist começa com “If You Know You Know”, contando com um beat denso, industrial, com samples de voz carregados de delay e percussões secas enquanto o rapper rima sobre ter sido um verdadeiro vendedor de drogas, joga shade em artistas que apenas fingem terem vivido essa vida, além do seu sucesso atual nas finanças e inclusive cita ter tanta grana quanto a Rihanna! (“The skybox is right next to RiRi’s”) O refrão, que dá nome ao título da música, explicita que só quem viveu a vida que ele vive entende de fato sua lírica. Uma ótima intro, que resume o conceito do álbum e pesada o suficiente para abrir espaço para a melhor música do projeto: “The Games We Play”. Som direto, com um ar de freestyle, onde o Push traça a linha dos verdadeiros jogadores enquanto um beat simples, mas fervoroso soa no background. As cordas e sopros na melodia são cativantes e servem perfeitamente o flow inflado de extravagância do rapper.

 

Já passando da metade de Daytona, “Come Back Baby”, de todas as faixas, é a que mostra mais claramente o talento do Kanye na produção. O minimalismo é claro, com os 808’s cheios de drive unidos à bateria simples parece preencher perfeitamente a textura do som. O que realmente dá cor à música é, novamente, um sample maravilhoso de George Jackson que toma conta do refrão. O verso é uma ode aos dealers que também são bons para a comunidade em que vivem, como nessas linhas:

 

“Blew through thousands, we made millions
Cocaine soldiers, once civilians
Bought hoes Hondas, took care children
Let my pastor, build out buildings
Rapped on classics, I been brilliant
Now we blend in, we chameleons, ahh!”

 

Com uma mudança quase imperceptível, começa “Santeria”, um soco na cara. Pusha T rima sobre os lados ruins da vida que ele leva sob um instrumental rebuscado, com destaque para os arpejos de guitarra que compõem a melodia e formam uma harmonia impecável com os triplets. Tudo isso conversa com a vocalização em espanhol do refrão e as rimas profundas e tristes do rapper na medida em que o som muda de ritmo. A música “What Would Meek Do?” explora um pouco mais o momento atual do cara, com a colab do Kanye. Sobre essa rima do Ye: não é das melhores que ele já fez, nem de longe, e a referência que ele fez do seu último som “Lift Yourself”, onde ele simplesmente canta “whoopty scoop” foi extremamente embaraçosa e tirou o valor da música.

 

Infrared” é a última música do álbum, e a que mais tem repercutido nos últimos 3 dias. Inclui diss contra o Drake, Lil Wayne e Birdman, revivendo a treta de anos entre o Pusha e o Drizzy. Contou com uma linha extremamente criativa, “It as written like Nas but it came from Quentin”, citando Quentin Miller, que supostamente escreveu algumas músicas do rapper de Toronto no passado e fez começar toda uma discussão sobre ghostwriting no hip-hop. Embora a resposta do Drake tenha sido muito mais selvagem em “Duppy Freestyle”, “Infrared” conta com linhas consistentes e imprevisíveis, referenciando até Cole e Kendrick em uma delas. Definitivamente um som que vai entrar para a história contemporânea do rap.

 

No geral, o projeto é sólido e artístico, com um peso lírico invejável compensado pelas melodias bem pensadas dos instrumentais, que equilibram a sonoridade do trabalho. O melhor álbum do Pusha T, de longe, na medida em que ele não foge do seu conceito de sempre e ainda sim traz conteúdos relevantes para o momento atual da música urbana. Pela força e importância do álbum, além de pouquíssimos momentos baixos, algo entre 8 e 9 é perfeito para a nota final.

 

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