Review: Kanye West – Ye

Conhece o novo trabalho de Kanye? Leonel Jacques nos apresenta um pouco mais.

Disclamer: Esse artigo é completamente opinativo e produzido pelo autor, e não expressa de nenhuma maneira a opinião geral da editoria da revista Over.

 

Nota do álbum: 7,5

 

Yo, Leonel Jacques aqui. Sim, saiu o projeto novo da figura mais polêmica do hip-hop nos últimos meses, e talvez um dos artistas mais geniais da nossa geração. Sobre as controvérsias, vocês podem procurar nos tabloides ou no próprio Twitter do cara. Eu confesso que tem tanto pra falar sobre o álbum que o espaço para as discussões pessoais dele precisam ser minimizadas, por ora... Ou não.

 

O projeto é um tour pela cabeça complexa e complexada de Kanye West, da frente ao verso. Ele faz com que seja impossível que não se produza algum tipo de indagação sobre o que passa na mente do irmão que é rapper, produtor, empresário, designer de moda e o mais importante, marido da Kim Kardashian.

 

Ye” tem 7 músicas, totalizando 23 minutos de um som minimalista e bem construído, por vezes introspectivo, com camadas instrumentais surpreendentes e mudanças drásticas de harmonia até mesmo na mesma música, trazendo percepções e humores diferentes ao longo de todo o trampo, assim mesmo sem perder contato com a roupagem musical e conceito do material. As faixas são suaves, e embora atinjam certo clímax em alguns momentos, especialmente em versos mais carregados de energia ou refrãos, a construção de cada instrumento é muito cuidadosa e chama a atenção. Tenho que creditar essa para o Kanye, demais coprodutores e engenheiros de som, que conseguiram entregar um projeto com sonoridade tão limpa e aveludada, ao mesmo tempo que não cai em qualquer passividade, mantendo meus ouvidos atentos para a próxima onda.

 

Elementarmente, vi referências de alguns outros álbuns do Kanye, principalmente o “The Life of Pablo”, seu projeto anterior. Aliás, ouso dizer que os dois (Ye e TLOP) são os trabalhos mais parecidos de toda a discografia do cara, famosa pela diversidade de conceitos e texturas musicais. Além dos sintetizadores vívidos e redondos contrastando com os baixos industriais, as baterias minimalistas, as letras intimistas e o uso cada vez mais eletrônico dos vocais, é inegável a semelhança da melodia vocal do West em “Yikes” e “Wolves”, por exemplo. Ou as construções de melódicos com um soul cheio de alma que se fundem em um beat melancólico de hip-hop alternativo, como ocorre durante todo o projeto antecessor. De certo modo, “Ye” é uma extensão de “The Life of Pablo”, mais concentrada e minuciosa.

 

O álbum começa com a crescente e, de certo modo, dramatúrgica “I Thought About Killing You”, que dita o tom do conceito do álbum com sua parte falada, onde o Mr. West explora seus pensamentos mais sombrios e polarizados, e um verso com grande entrega e sentimento ao longo da track. É uma música com nuances criativas e melodias bem construídas, mas não se trata de uma das introduções mais completas, geniais ou cativantes do cara. É uma missão dificílima superar as intros de nível altíssimo de alguns dos outros álbuns (Dark Fantasy e Ultralight Beam por exemplo, puta que me pariu!). Confesso ter sentido falta de um refrão ou passagem melódica mais consistente e que agregasse identidade ao som, como um todo. Definitivamente não é uma música ruim, inclusive surpreende pela performance do cara, mas a exigência sobe quando se trata de Kanye.

 

A personalidade que falta na intro sobra em “Yikes”. Há uma dualidade proposital entre refrão/versos, que representa a bipolaridade do Kanye de maneira incrível. O hook é introspectivo e melancólico, na medida em que vemos ele refletindo no quão assustador são seus problemas internos... então ele estraga tudo com um verso SELVAGEM. Amo o quão comicamente Mr. West aborda assuntos delicadíssimos, incluindo seu problema recente com vício em medicamentos, tretas antigas e até o envolvimento em escândalos sexuais do presidente da gravadora Def Jam, Russell Simmons, trazido à tona pela campanha #MeToo! Essa essência satírica se traduz no desenvolvimento de uma persona carregada de arrogância e vaidade, como se ele realmente brincasse de ser poderoso em Hollywood e como se nada estivesse fora dos limites. Um verdadeiro megalomaníaco, que faz esse teatro de maneira genial desde o “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”, de 2010.

 

All Mine” é sobre o suposto lado “insaciável” do Ye com relação às suas luxúrias e relacionamentos com mulheres. Mais uma produção minimalista desde as vozes até a os instrumentos, suave, com vibes sensuais e um belo trabalho do Valee e do Ty Dolla $ign no refrão. O verso do West é feroz, absurdo, cômico e cheio de energia, que aliado a performance melódica incrível dos cantores, constrói a melhor música do projeto.

 

A inteligência das escolhas de samples vocais do Kanye são gritantes em “No Mistakes”, “Wouldn’t Leave” e “Ghost Town”. Aliás, a última é uma aula de melodia, no que se trata de vivacidade e consistência, ótimas participações do John Legend e Kid Cudi, performance impecável da caloura 070shake e provavelmente a música mais experimental e alegre de todo o projeto. “No Mistakes” soa como um interlúdio mais sóbrio e direto do álbum, boa performance do Ye e algumas linhas memoráveis, como a que aparentemente é direcionada ao Drake e seu recente desentendimento com o West:

 

Truth told, I like you

Too bold to type you

Too rich to fight you

Calm down, you light skin!

 

Wouldn’t Leave” é mais uma das serenatas de amor incondicional que Mr. West fez à sua amada, Ms. Kardashian West. O som é uma ode aos tantos momentos em que ele fez ou falou merda na mídia, e a moça se manteve ao lado dele. Jeremih também agregou muito valor ao som (que pediu por uma pitada de R&B). No geral, é um som ok, mas definitivamente não tem tanta força quanto outras faixas do projeto e por isso se torna um tanto monótona.

 

Violent Crimes” finaliza o projeto. Pianos calmos e um tanto angelicais tomam conta da textura da música, trazendo uma pitada de nostalgia para meus ouvidos. É um final sólido, bom verso do Kanye refletindo sobre sua vida como pai e a 070shake fazendo outra colab belíssima no refrão. Nicki Minaj termina o som, numa aparente chamada por telefone e fazendo referência ao verso dela em “Monster” (MBDTF, 2010).

 

Ye” conta com uma produção luxuosa, assim como todos os seus antecessores. Ótimas colabs, samples muito bem escolhidos, fidelidade ao conceito e boas performances, apesar de algumas vezes exageradas, do Kanye. É um trabalho sólido, mas a curta duração faz com que não seja tão desafiador quanto vários dos outros projetos do cara. A melhor produção do ano, até então, mas sinto que um leve 7,5 é uma nota justa, pelo potencial que o projeto teve em comparação com o que realmente foi e com o nível de exigência que todo fã de hip-hop tem quando se trata de Kanye West.

 

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