Review - TA13OO - Denzel Curry

Leonel Jacques analisou o álbum novo do Denzel, uma promessa do Hip-Hop que vem se tornando referência na cena.

Disclamer: Esse artigo é completamente opinativo e produzido pelo autor, e não expressa de nenhuma maneira a opinião geral da editoria da revista Over.

 

 

 

Yo, Leonel Jacques aqui. O rapper Denzel Curry colou com o ‘TA13OO’ (estilizado de Taboo) no dia 27 de julho. O floridense é destacado pela identidade única apresentada nas últimas mixtapes e especialmente no último LP, ‘IMPERIAL’ (2016), que elevou o nível do artista de 23 anos a uma das maiores promessas da nova geração do Hip-Hop. Denzel dispõe de uma versatilidade impressionante, atacando em instrumentais modernos, em roupagens mais old-school e em ávidas experimentações musicais, que ultrapassam as referências convencionais do rap.

 

‘TA13OO’ é conceitual e arrojado. Foi dividido em 3 atos, cada um entre 4 e 5 músicas, com a intenção de representar esteticamente a luz, o cinza e o sombrio. Em todos os volumes, os conteúdos gravitam entre conflitos internos e insights sobre a indústria musical, na medida em que Denzel Curry endereça assuntos como neuroses e depressão, o racismo sistemático dos EUA e sua evolução pessoal no mainstream em texturas agressivas e densas. Como resultado, os enfoques líricos não seguem a ordem das estéticas à risca tanto quanto os instrumentais, esses fiéis às três ambiências segmentadas no álbum. Proposital ou não, as camadas se tornam um tanto diluídas, tornando mais difícil a diferenciação das partes do projeto.

 

Mesmo assim, o trampo é conciso e fascinante. A escolha das linguagens ao tratar de assuntos-chave durante o álbum faz crescer a relevância e originalidade do ‘TA13OO’. Como em ‘THE BLACKEST BALLOON’, apoteoticamente profunda, refletindo sobre os “fantasmas” que perseguem a saúde mental do Denzel encorpados em uma cadência instrumental e de flow carregadas de agressividade e emoção. Sem dúvidas, outro artista que prova na prática o quanto a influência do trap na espinha dorsal do Hip-Hop não deve ser confundida com falta de aprofundamento lírico ou de storytelling.

 

Outros flows devastadores podem ser encontrados, por exemplo, em ‘Switch it Up’, ‘Super Sayan Superman’ ou em ‘Sirens’, uma das passagens político-raciais do álbum, com uma colab fortíssima do J.I.D, que caiu como uma luva no som. Curry tem personalidade e jogo de caneta forte para alegorizar a situação do racismo sistemático de uma maneira criativa, como nesse verso:

 

“Eyesight is a gateway
To a new day and the same hate
With a new height and the same feet
On a airplane yelling, "Mayday"
With a good girl gone bad girl
Who went gay ’cause of date rape
That’s a metaphor for the US
’Cause they got us all in the same state
State of mind, brain is minimized
Put me on the news, only criticize
Revolution will never be televised
For the enemy, they never empathize”

 

Meu pequeno momento Genius, a fim de decodificar a letra: Curry aponta que em uma sociedade passível de ódio a minorias, com segregação racial enraizada, os novos despertares para um pensamento mais progressista pouco parecem alterar tal situação (new day and the same hate/ new height and the same feet). Denzel reflete também sobre a docilização do afro-americano, muitas vezes forçado à reclusão do seu melhor estado mental pelas instituições de poder. Para essa linha de pensamento, é construída uma comparação criativa com algumas moças que sofrem abusos de homens e por conta disso acabam por limitar todas as suas relações com outras mulheres (with a good girl gone bad girl/ who went gay ‘cause of date rape). A parte do verso que retirei termina com a ideia de que a nova revolução jamais será televisionada, e que não há empatia para com os “inimigos” do Estado.

 

Tamanha representatividade, aliada de uma entrega avassaladora com emoção em cada sílaba, escancara o talento e relevância em potencial do rapper a partir do ‘TA13OO’. No mais, é louvável a maneira em que o cara se apodera também de instrumentais mais cadenciados e mostra evolução melódica e de canto nos seus hooks, como na intro ‘Taboo’ ou em ‘Black Balloons’. Aliás, os “balões pretos” são uma metáfora recorrente do trampo, e representam os pensamentos sombrios que vêm a atormentar Denzel.

 

Talvez o mais preocupante desses pensamentos esteja documentado em ‘Clout Cobain’, som em que Curry discorre sobre seus pensamentos suicidas e se posiciona indiretamente contra a cultura das drogas farmacêuticas no Hip-Hop. Maiores insights sobre esse assunto são encontrados na elétrica ‘Percs’, contando com um refrão que diretamente diz (I do not fuck with the Percs). Linhas também são direcionadas ao conteúdo supersaturado de alguns artistas da cena: (with these dumbass niggas, and they don’t say shit/ sound like “durr, durr, durr’, you like ‘oh that’s lit!/ with yo’ boof ass hits, “imma fuck yo’ bitch, I just popped two Xans”/ nigga fuck that shit!).

 

‘TA13OO’ também se tornou responsável por me apresentar a cantora de R&B alternativo Nyyjerya, dona do refrão de ‘Cash Maniac’. Roubou a cena no som mais alegre do álbum, com instrumental carregado de balanço e sintetizadores que lembram uma vibe oitentista. Comparado com a faixa final, ‘Black Metal Terrorist’, que mais soa como uma faixa perdida do Burzum enquanto Curry rima sobre matar seus “infiéis”, a terceira música do trampo parece mais um passeio no parque.

 

Denzel Curry se superou. Encontrou sua roupagem perfeita, acertou na escolha de beats, produziu um conceito interessante (embora não perfeitamente capitalizado) e brincou com basicamente todas as rendições de sons possíveis. As colabs, dentre elas, JPEGMAFIA e GoldLink, trouxeram exatamente o que as músicas precisavam, e houve química e entrosamento entre elas e o dono da bola. Para essa obra de arte, um 9 é a nota perfeita.

 

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