Review – ASTROWORLD – Travis Scott

Fomos convidados a entrar em um mundo psicodélico e excitante, onde a linguagem artística realça a profundidade dos prazeres mundanos. (8,0)

 

Já era tempo de ser lançado o altamente antecipado ASTROWORLD, obra arquitetada pelo rapper, produtor e visionário Travis Scott, originado de Houston, TX. É o terceiro álbum de estúdio do cara, que surgiu como protegido de Kanye West poucos anos após o começo da década, alcançando o amor da crítica e uma base astronômica de fãs com a mixtape Days Before Rodeo (2014)e sua estreia ousada no mainstream, Rodeo (2015).

 

Depois de um projeto xoxo aqui e ali (Birds in the trap sing McKnight (2016) e Huncho Jack, Jack Huncho (2017) em colab com o Quavo), dúvidas me assolavam como fã de Hip-Hop exigente: será que a fonte da inovação de Travis Scott secou? Após dois trabalhos que demonstraram falta de inspiração, criatividade e até mesmo pouca vontade de revolucionar seu próprio estilo, os astros retornariam ao seu devido lugar apenas com um novo álbum, que deveria mais do que nunca ser forte, visceral e icônico.

 

E o La Flame levou o tempo dele confeccionando o lance. Já em 2016, o nome ASTROWORLD foi anunciado, arquitetando o hype imenso do projeto desde então. Até a estreia, foram teasers, tweets de produtores e colabs, revelações de dentro da indústria e diversos outros movimentos calculados que colocaram o terceiro álbum solo de Travis Scott em um pedestal, mesmo sem ele ter sido completado. Com todos os olhos voltados para o dia 3 de agosto (data do lançamento), a polarização era clara: ou ASTROWORLD consagra o cara, ou decepciona de forma apocalíptica.

 

A capa foi, de longe, o maior dos preparos para o que viria em forma de música. Com o ensaio criado e dirigido por um dos maiores artistas visuais do nosso tempo, David LaChapelle, é notável o cuidado em representar grandiosidade e psicodelia nas imagens, tanto na versão diurna com as crianças, quanto na versão noturna, que conta com modelos nuas em posições gritantemente bizarras. Presumi que esse seria um trampo diferente do Birds in the Trap, melhor trabalhado, com identidade única e completamente fora da casa. Um divisor de águas para o Travis.

 

De várias maneiras, ASTROWORLD se assemelha com seu melhor projeto até então: Rodeo. Sua concisão em cada detalhe, instrumentais teatrais derivados do potencial absurdo de curadoria do Travis Scott, a percepção quase visual das estéticas de diversas faixas e a capacidade primordial de transmitir profundidade nos significados das músicas sem necessariamente ser lírico ou narrativo contribuem de maneira absurda para a qualidade dos álbuns e do artista. Ao longo do álbum, ele desenvolve uma persona inserida no seu mundo luxuoso, depravado e controladamente caótico, e com camadas maciças de ambiência e criatividade, dá profundidade à superficialidade.

 

É por esse motivo que Travis se destaca de seus contemporâneos. Em uma vertente do Hip-Hop que se apresenta tão comercial, tão efêmera, seu experimentalismo sonoro e visão artística permite com que seja pintada uma estética do momento, altamente filmográfica, de assuntos previamente taxados como pobres em significado.

 

Se pegarmos a frenética Sicko Mode como exemplo, onde os conteúdos líricos não passam de ocorrências situacionais decorrentes da fama, o modelo próprio da letra procura passar ambientações, visuais e referências a todo o momento. A participação do Swae Lee, de meramente uma frase compondo o hook, é essencial para o escape melancólico da faixa.

 

A colab do Drake é pontual ao ditar o posicionamento emocional da música (não é à toa que o instrumental muda quando ele sai, e muda quando ele volta). O verso de introdução é sentimental, enquanto o da ponte de 2 minutos é cru e provocante. Todas essas mudanças de camada exercitam a estética metafísica e consciente da sua criação, ao mesmo tempo em que Sicko Mode é, inegavelmente, um banger divertido e cativante.

 

A brincadeira da troca de beats já começou na intro, aliás. Stargazing é a faixa de bom dia do ASTROWORLD, perfeitamente dividida em duas partes e também explorando dualidade de percepções. O acompanhamento é bem psicodélico e o verso do refrão é oitavado, dificultando propositalmente o entendimento da letra. Enquanto a parte inicial da faixa é uma reflexão sobre a Kylie ter “acordado” o La Flame de um delírio resultado do abuso de opióides e psicodélicos, a segunda metade do som vem como um verdadeiro monólogo, que pesa na alma e prepara os ouvidos para o que vem em seguida (this right here is astronomical!).

 

Eu adorei o verso do Frank Ocean em Carousel, principalmente porque me fez voltar 300 vezes na música para decidir se me agradou aos ouvidos. A faixa por si só é de difícil compreensão, instrumental fechado e com BPM alto, entrelaçando-se à letra alegórica. O que não foi nada metafórico é o shade básico direcionado ao Kanye em Stop Trying to be God (feat. Kid Cudi), som em que Travis Scott disseca o complexo de santo de um sujeito indeterminado sob um belo e calmo instrumental.

 

Falando em colab, o ASTROWORLD teve algumas muito interessantes. The Weeknd emprestou sua voz na sensual Wake Up e em Skeletons (produzida por Kevin Parker, do Tame Impala!). Enquanto a última soa como um belo interlúdio, ao passo que Travis filosofa, entre poucos outros pontos, sobre valores sexuais e de intimidade, Wake Up é viciante, tem um ótimo sample e explora a potência vocal dos dois monstros ao máximo.

 

No Bystanders (feat. Juice WRLD e Sheck Wes) é outra faixa energética, explora o flow e potencial geral de Travis Scott como rapper nos seus versos e recorta o instrumental com inserções de pequenas vocalizações das colabs. Dos dois manos, Wes é muito melhor representado tendo a função mais crua do som, aos gritos de “fuck the club up! ”. O corte melódico doJuicesoa completamente deslocado da música, embora o problema pareça muito mais de produção do que efetivamente de talento do cara, ou qualidade do hook.

 

Existem alguns outros pontos baixos no ASTROWORLD. Inclusive, depois do banger NC-17 com 21 Savage, o projeto apresenta diversos momentos de irregularidade, apesar dos cuidados com o entrelaçamento das faixas, do conceito e da produção luxuosa. O verso do NAV no fim de Yosemite só pode ter sido gravado em um microfone de Xbox. Can’t Say é inteiramente arquitetada em torno do Gunna, só tem um problema: eu nunca presenciei uma voz cantada que pudesse ser tão genérica e ao mesmo tempo completamente desprazerosa.

 

Não sejamos injustos, Travis também quebra a banca no fim do projeto. A icônica Houstonfornication e o single já consagrado, Butterfly Effect, renovam as forças do projeto com instrumentais agradáveis e cadências bem diretas. Coffee Bean termina o ASTROWORLD como uma bela calmaria. Parece que a volta na montanha-russa acabou.

 

O álbum segue seu conceito e traz ótimas participações, que foram escolhidas à dedo para agregar valor à música, não o contrário. É genialmente produzido, arriscado, valoriza meu xará Jacques em diversos parâmetros e põe um ponto final na discussão de como devemos ranquear o cara no game. ASTROWORLD põe o cara na mesma lane que J. Cole, Kendrick Lamar e Drake, visto seu apelo crescente à cultura pop e o impacto na musicalidade do gênero em si.

 

8,0

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