QUEM MATOU OS RINGTONES?

Um dos culpados é você mesmo. O outro é os "novos tempos"

Uma consequência interessante e bem pouco percebida do aumento do uso de serviços de streaming de música, como Spotify e seus concorrentes, bem como de aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, é a morte lenta dos ringtones. Se você não está em Verão 90, explico: são os toques personalizados quando o aparelho móvel recebe alguma chamada.

 

Nostalgia pura define. Eu tive um Nokia 2630, um dos expoentes dos primeiros millenials, e uma das minhas maiores satisfações era quando o telefone chamava, só para ouvir “Blue Ice” tocar. Era ums dos sons padrão daqueles celulares indestrutíveis, e confesso que atrasei o atendimento das chamadas incontáveis vezes, só para ouvi-lo tocar.

 

Só que o Blue Ice conta parte do fato. Hoje em dia, o smartphone é cada vez menos utilizado para ligações, e tentar teorizar os motivos disto recai em um fenômeno da comunicação no qual houve poucos precedentes na modernidade. É uma história que mistura ganância e oportunidade. Enquanto os aplicativos vêm ganhando cada vez mais funções, a chamada falada em tempo real por redes móveis fica obsoleta em ritmo assombroso.

 

A própria expressão “ringtone” parece vinda de outros tempos, e no passado, iniciativas relativamente obscuras viraram piada e sinônimo até de teorias conspiratórias, quando muito de breguice mesmo. Quem é brasileiro, tem mais de 25 anos e assistiu televisão regularmente ali por 2009 talvez possa se lembrar dos famigerados “João, te ligam, João, atende”, acusado de repassar mensagens satânicas.

 

Faça o teste. Reúna dez pessoas aleatoriamente, cada uma com seu smartphone (não é difícil, vai por mim). Ligue para cada uma delas, e peça para o destinatário não atender. As chances de todas aquelas que tenham telefones com a mesma marca de telefone também compartilhem o mesmo toque são altas.

 

Perceba também que um toque de celular personalizado se propunha a ser justamente isso: uma extensão das preferências pessoais daquele indivíduo; aqui, me refiro às musicais. Vamos lá: era divertido todo mundo em volta ouvir um trecho da sua música favorita tocar durante a espera de uma chamada.

 

Obviamente, os tempos mudaram, o YouTube e o Spotify assumiram esta curadoria da preferência de canções e quebraram esta hegemonia, pasteurizando tudo e praticamente definindo o que você vai gostar. Hoje em dia, você gosta de uma música apenas? Aliás, você gosta de quais músicas? Aliás, você gosta de música? Tem certeza?

 

Toques de telefone, assim como papéis de parede para smartphones, podem não parecer, mas mudam a cada novo lançamento. Isso porque seguem sendo importantes para a tecnologia, pois requerem certo grau de envolvimento da indústria criativa, tanto quanto o design dos aparelhos. De certa forma, ainda conferem certo grau de personalização e diferenciação aos olhos e ouvidos dos usuários.

 

Se a qualidade técnica dos sons melhorou de forma considerável nos últimos anos – ainda que talvez a mais recente inovação tenha sido a vibração durante o toque –, os ringtones provavelmente estão entre as prioridades mais baixas desta mesma indústria. Só posso concluir que são mais uma vítima improvável dessa massificação da comunicação por meio da palavra escrita, em detrimento da falada.

 

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