NAS ONDAS DO RÁDIO

Por mais de um século, o meio de comunicação evoluiu pouco, mas permanece com o status de cool e nostálgico

Pense na seguinte situação: de repente, hordas de zumbis começam a se espalhar pela cidade, mas você está em um local relativamente seguro, porém sozinho. As comunicações foram cortadas: Internet, telefone celular, energia elétrica, não funcionam. Comida e bebida são escassas, e você precisa encontrar meios de sobrevivência, ainda que a esperança de achar outras pessoas vivas também é importante. Como?

Eu apostaria em um meio tradicional até hoje, e ao mesmo tempo vintage e nostálgico: o rádio à pilha, que provavelmente ainda funcionaria.

O rádio é tão ligado a situações desse tipo que é largamente referenciado como recurso de emergência em diversas obras, desde o livro “Blecaute”, do brasileiro Marcelo Rubens Paiva, que é um suspense passado em uma São Paulo abandonada, e na qual os protagonistas, ao se verem sozinhos, invadem o estúdio que parece ser da Jovem Pan na Paulista e transmitem sinais de lá, até o filme “Eu Sou a Lenda”, do protagonista Will Smith, entre outros.

Uma verdade inconveniente: o fato é que o rádio, sozinho, nunca evoluiu. Para haver esta evolução, é necessário o suporte de outras mídias, como a Internet, e, quem diria, a televisão. A Rádio Gaúcha é um exemplo. Segunda maior rede do Brasil, com 90 anos de história, ela reformulou sua grade de programação, introduziu o ao vivo no Facebook em quase todos os programas, mas, ainda hoje, se eu mexer na antena do radinho de pilha, a emissora começa a emitir uns chiados (isso em FM, porque em AM nem se fala). Isso a 35 km de Porto Alegre.

Mas é isto que torna o rádio tão cool, e na minha opinião é impressionante como os hipsters ainda não perceberam. Na Europa, especialmente no Reino Unido, onde a Radio Caroline atuou como emissora pirata durante décadas, rádio é cool (a própria Europa é cool). Na verdade atuou, porque desde maio deste ano ela ganhou uma faixa em AM, mas o que torna a Caroline tão legal é que seus transmissores ficam (ou ficavam) em um navio no meio do oceano – história retratada no filme “Os Piratas do Rock”, com Philip Seymour Hoffman.

De qualquer forma, quem trata do rádio está tratando da história também, coisa que não acontece em outros meios de comunicação, como o jornal impresso, igualmente nostálgico. Meu pai conta que, na infância dele, lá em Tucunduva, quase na fronteirado Rio Grande do Sul com a Argentina, no velho rádio da família, sintonizado na hora e frequência corretas, era possível ouvir o serviço em português da emissora oficial da Alemanha, provavelmente a Deutsche Welle (Voz da Alemanha).

Nessa época, ali no início da década de 70, a Internet não existia; havia só um punhado de cabos entre bases militares dentro dos Estados Unidos, e esta rede ainda era chamada de Arpanet.

Isso acontecia porque, lá da Europa, a rádio enviava ondas eletromagnéticas na faixa dos mega-hertz para as camadas mais altas da atmosfera, que as refletiam e espalhavam por uma vasta região do globo. Até hoje muitas rádios usam este recurso para transmitir sinais assim, que podem ser medidos e recebem o nome de ondas curtas. O meio é tão incrível que só funciona, sei lá, algumas horas por dia – graças a fatores físicos e técnicos que geralmente fogem da compreensão da galera de Humanas, como a exposição aos raios solares. Esse mesmo sinal do radinho chega lá longe, onde televisão e muito menos Internet se atrevem a estar - ainda que o processo de ondas é relativamente o mesmo.

Saindo das explicações lógicas e a despeito da estagnação técnica, o rádio sobrevive graças a um processo fundamental que passa dentro da nossa cabeça e que os professores de Jornalismo fazem questão de salientar em aula: a imaginação. Ouvimos a voz e imaginamos o que está acontecendo, assim como em uma música. O Spotify pode estrangular as emissoras musicais, assassinar o MP3, mas não pode matar a informação.

É por isso que a Voz do Brasil, no ar há 82 anos com as notícias do governo federal, transmitido para todas as emissoras do País, de segunda a sexta às 19 horas (horário de Brasília) não vai acabar tão cedo. O exemplo parece absurdo, mas, em se tratando de um meio que não apresenta evolução prática desde o padre Landell de Moura, há mais de um século, não é tão difícil assim de entender.

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