EU, A FILHA DA EMPREGADA

Desde que a minha árvore genealógica me permite saber, venho de gerações incontáveis de empregadas domésticas.

Isso é tudo que sei. Isso vem mudando agora, eu, por exemplo, sou o primeiro diploma de curso superior pelo meu lado paterno e a primeira na faixa dos vinte poucos anos por parte da minha mãe. 

 

Eu cresci em casarões, em apartamentos luxuosos, com móveis sob medida, com talhares de prata e louça portuguesa, uns diziam que era pintada a mão. Muito pó tirei desses móveis, muito poli essa prataria. Era o serviço que a minha mãe designava a mim. Era o que a minha pouca idade permitia eu fazer pra ajudá-la. Eu tinha tevê a cabo também. Eu ficava em pé, meio escondida atrás de um dos móveis, em quanto a filha da patroa assistia cartoon. Eu maladramente abafava meus risos, vá que me descobrissem ali? Em qual lugar eu assistiria a Vaca e o Frango de novo? Melhor eu gargalhar pra dentro. 

 

As vezes era entediante, tinha que ficar ouvindo da minha mãe o tempo todo: “por favor, cuidado ao secar essa louça. Larga essa boneca, não é tua”. Ou então o mais triste. “Não, tu não vai tomar banho de piscina. Não pode. Não é a nossa casa". Eu não entedia o porquê  de não poder nem molhar os pés naquela piscina enorme. Anos depois eu entendi: era a filha da empregada, aquilo não era pra mim, mas tudo bem, tinha um tanque de concreto lá em casa, e era bem mais divertido. 

 

Nesse meio tempo muitas das patroas diziam para minha mãe que eu e meus irmãos éramos QUASE da família. Mas assim,  quase é a linha tênue que mantém a empregada na cozinha quando o dia é de festa. O quase é o andar que separa o quartinho sem ventilação do quarto luxuoso de hóspedes. O quase é o presentinho que substitui o salário digno, que sempre fica aquém em comparação a outras profissões. 

 

Eu cresci rodeada de luxo, mas nem de longe usufrui disso tudo. Minha mãe saiu de casa aos 12 anos e ainda sim, aos 44 está na mesma lida. Fez da vassoura e dos produtos de limpeza que corroem as suas mãos, o sustento de seus três filhos. E atentamos para o detalhe de a minha mãe ser mãe solo. Mais uma Maria que tem o peso do patriarcado em suas costas. Mas mesmo diante toda dificuldade, hoje enche o peito pra dizer que tem uma filha jornalista que mora na cidade grande. E que os seus outros filhos estão com a vida pré encaminhada para uma vida ainda mais digna. 

 

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