ESSA SÉRIE NÃO POUPA NINGUÉM

O Mecanimo, série brasileira disponível na Netflix, com produção de José Padilha, estreou sua segunda temporada em maio.

Essa é uma daquelas séries que recebram a minha descrença e, logo na sequência, precisei me redimir. No ano passado, a primeira temporada da série “O Mecanismo“, se transformou em um símbolo do heroísmo da Operação Lava Jato para o Brasil, ao mesmo tempo em que foi acusada de distorcer os fatos e criar uma produção antipetista. Ela servia, e segue servindo, para quem ainda possui dificuldade de entender tudo que aconteceu e acontece na política nacional. De 2018 para cá, muitos acontecimentos tomaram conta da política brasileira e a série chega em sua segunda temporada, que estreou no último dia 17, com um tom completamente diferente. A mensagem dessa vez é: a política brasileira é irreparável, independente de quem a faz. Você aí concorda?

 

Bom, após assistir os oito novos capítulos em apenas dois dias, posso afirmar que todos estão na mira do roteiro, desde os empreiteiros, os doleiros e, principalmente, os partidos, os políticos e os ministros do Supremo. Isso fica claro na abertura da série, que ao som do samba de Bezerra da Silva “Reunião de Bacana”, mais conhecido pelo refrão “se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão”, há várias imagens dos mais diversos políticos que estiveram no poder no país desde a redemocratização. Na primeira temporada, por exemplo, o juiz Paulo Rigo (referência ao ex-juiz da Lava Jato e hoje ministro do governo Bolsonaro, Sérgio Moro) foi retratado como o “herói” da nação. Nesta segunda parte ele é descrito como “vaidoso e cabeça dura”. Já o MDB, partido do vice-presidente Samuel Thames (alusão a Michel Temer), é elencado como o partido-base de toda a corrupção sistêmica no Brasil a partir de 1987, a volta da democracia pós o regime militar.

 

 

Essa produção é baseada no livro “Lava Jato”, de Vladimir Netto, a produção mistura ficção e realidade — o que ficou ainda mais evidente nesta segunda parte, que traz inúmeras situações inventadas para garantir drama e agilidade à produção. Por conta disso, algumas das expectativas para entender como funcionou, em ordem cronológica, toda a investigação no Brasil podem ser frustadas. Eu, mesmo gostando do assunto e estando sempre conectada aos fatos me perdi em alguns momentos. Na nova temporada, os primeiros cinco episódios mostram a relação das investigações com os empreiteiros e foca principalmente na obsessão da policial Verena Cardoni em prender o Ricardo Bretch (Marcelo Odebrecht, na vida real). O roteiro mostra como o rumo das apurações deixaram a Miller & Bretch sem saída, com a única alternativa de fazer uma delação premiada para salvar a empresa.

 

Há, também, a sequência da perseguição de doleiro no Paraguai, morte de agente da Polícia Federativa (referência à Polícia Federal), traição de casal dentro do Ministério Público, todos esses eventos que nunca foram à público pela Lava Jato verdadeira. Depois, a partir do sexto episódio, começam as negociações políticas para derrubar a presidente Janete Ruscov (alusão à ex-presidente Dilma Rousseff), que se transformam no núcleo central da narrativa. Há diversas reuniões para organizar o impeachment entre ministros do Supremo, com o então presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Penha (Eduardo Cunha), Samuel Thamis (Michel Temer) e Lúcio Lemes (Aécio Neves), que só aparece bebendo whisky ou fazendo uso de cocaína (risos aqui).

 

A partir deste momento, a série começa a retratar o processo como um complô de políticos corruptos para tirar o PT do poder e, assim, frear a Lava Jato. Janete é retratada como uma vítima, que não cometeu crime de responsabilidade e se recusou a entrar no esquema de corrupção. Já João Higino (Lula), que não aparece com frequência nesta temporada, ganha ares generosos. Há uma cena em que ele é levado para depor (o que de fato aconteceu) e se diz perseguido por causa dos avanços sociais alcançados em seu governo. Nessa hora, os investigadores ouvem calados.

 

 

Agora vamos para as apostas para a 3ª temporada, eu já tô querendo!

 

Na última cena, durante a votação do impeachment, o roteiro acrescenta um personagem que pode ser o alvo da próxima temporada. Seu nome ainda não foi revelado pelos roteiristas, mas ele diz: “perderam em 1964 e perderam agora”, diz o deputado ao votar. “Pelo Brasil acima de tudo, e por Deus acima de todos, o meu voto é sim”, sem deixar dúvidas sobre quem ele é. Pegou a dica? Além disso, há alguns sinais de que o papel de Rigo (Moro) pode ser mais explorado — com tons negativos, claro. Na cena em que o juiz decide divulgar um grampo ilegal do ex-presidente Gino com a presidente Janete, a situação é descrita como “uma pitada de cinismo”. Por fim, quando a filha pergunta ao juiz se pretende entrar na política como dizem os críticos, Rigo se assusta e responde: “Não, filha. Nunca”.

 

Me conta aí, vai. Essa história é bem familiar, né? Confesso que em alguns momentos me peguei rindo, de nervosa, é claro. Assistam, recaptulem nossa história política mais atual e percebam, em tons severos de sarcasmo, o quão afundados nós estamos.

tags

o mecanismo mecanismo política brasileira brasil política série política séries

+ FILMES E SÉRIES

últimas

x

Obrigado!

Em breve você receberá novidades.

Aguarde...