AS HIJRAS: O TERCEIRO SEXO

Você sabia que na Índia existe um gênero fora do masculino e feminino, considerado ‘o terceiro sexo’? Curioso para saber mais? Então pega o café, água, chá e vamos conversar.

Em 2014, quando estive em Vrindavan - cidade composta por uma comunidade religiosa localizada em Mathura - fiz algumas aulas de Odissi, dança tradicional do país, e meu professor usava Kajal - algo parecido com um delineador nos olhos -, batom e outros adereços estereotipados por representar à ‘feminilidade’. Curiosa que sou, fui perguntar para ele qual era à visão hinduísta, mais precisamente do vaishnavismo, sobre homens que usavam tais adereços, mesmo que fosse apenas de forma artística representando um papel como dançarino. E foi aí que conheci as Hijras, ou o “Terceiro Sexo”. 
 
Há pelo menos quatro mil anos, as escrituras sagradas hinduístas mencionam o termo Hijra, que designa à meninos que foram castrados, e depois o mesmo termo foi vinculado à “homens” que não se identificam com o gênero biológico - apesar da grande maioria das Hijras serem “homens” que não se identificam com o gênero masculino, homens impotentes e que foram estuprados também são considerados  parte desta comunidade. As Hijras são consideradas seres místicos dotados de poder para amaldiçoar ou dar às bênçãos - algo parecido com as benzedeiras ou bruxas - , pois transcenderam a dualidade material de masculino e feminino, bom e mal, certo e errado, e os desejos da carne (atribuído ao fato de serem eunucos). Esse tipo de crença fez os ataques ligados à transfobia serem reduzidos ou quase inexistentes, mas isto não muda o fato de haver contradição e preconceito relacionado a esse grupo do ‘terceiro sexo’.  
 
A incoerência é encontrada no fato da Índia ser um país com raízes conservadoras (lê-se preconceituosa e machista) onde não é tolerado ser gay, lésbica ou bissexual – porém, as Hijras “não se enquadram na siga LGBT+”, pois são consideradas o terceiro sexo, já que nas próprias escrituras vemos Vishnu, Deus para os seguidores do Vaishnavismo, passar para o outro gênero em diversas ocasiões. 
 
A problemática em torno desta comunidade se volta quando falamos sobre a castração, alguns membros da ONU consideram a prática como uma das maiores violações dos direitos humanos, sendo muitas vezes essas castrações feitas de forma criminosa por máfias de exploração sexual masculina. Além do mais, após a colonização inglesa, os europeus trouxeram a visão judaico-cristã sobre sexualidade e gênero, marginalizando tais comunidades de Hijras, o que levou desde então ao alto índice de prostituição e criminalidade das mesmas. Apenas em 2014, a Suprema Corte da Índia reconheceu oficialmente as Hijras como um terceiro gênero, trazendo assim direitos legais e dignidade às mesmas.
 
O reconhecimento legal não significou fim da segregação ou marginalização, já que grande parte continuam atuando na prostituição pela dificuldade de entrar no mercado de trabalho, além da burocracia pelo Estado para o reconhecimento legal da nova identidade de gênero, causando transtornos e humilhações ao preencher formulários e documentos. 
 
Por um lado, vemos esta figura mística, sendo consideradas deusas encarnadas e provedoras de bençãos e maldições, e por outro lado, temos as violações dos direitos humanos e a marginalização das mesmas, e assim, entre essas contradições, vivem as Hijras na Índia, que ainda lutam por leis menos segregacionistas, apesar dos avanços nos últimos anos. 
 
Separei aqui alguns documentários para quem quiser saber mais a respeito:
1. Hijra (Edição Inglês), de Hala Alyan
2. Hijra (Edição Inglês), de Ash Kotak (2015) 
4. Hijra: An Indian Transgender Erotica
 
Datas comemorativas:
Festival do Koovakan, em que exercem livremente seu poder de expressão. O Koovakan e parecido com a Parada LGBT+, onde reúnem toda a comunidade LGBT+.
 
 

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